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Aramis

Viagem pelo som Brasil (que resiste) via independentes

Como está cada vez mais difícil navegar pelo som Brasil nesta época em que o marketing domina a produção fonográfica e os gerentes de produtos das gravadoras (Ah! Que saudades de diretores artísticos da sensibilidade de um João de Barro ou Aloysio de Oliveira!) impõe cada vez mais artistas (sic) moldados para o consumo imediatista, faz bem, quando possível, viajar pelo canto (que resta) de um Brasil de raízes. E uma das poucas veredas está na gravação independente, que em seu ano 11 - considerando como ponto de partida o "Feito em Casa", de Antonio Adolfo (1977), se reduz cada vez mais em quantidade mas, em compensação, melhora a qualidade. O custo cada vez maior da produção de um disco independente, por mais camaradagem que haja de todos os participantes, inviabiliza projetos a respeito e os (poucos) elepês que saíram nestes últimos dois ou três anos, ficaram, infelizmente, na maioria das vezes restritos às fronteiras dos Estados - muitas vezes das cidades - dos seus intérpretes. Este problema - a falta de intercâmbio de divulgação -, é que foi, é (e, pelo visto continuará sendo) o calcanhar-de-Aquiles dos independentes, que impedidos, naturalmente, por limitações financeiras de fazerem excursões, tendo seus discos recusados pela maioria das lojas e, muitas vezes, nem colocando os endereços para atender eventuais pedidos pelo reembolso postal, ficam ilhados, desconhecidos da maioria. E há trabalhos interessantíssimos, dignos de figurarem entre os melhores de cada ano e que mereceriam ser conhecidos e divulgados. Mas que não recebem a menor cobertura da imprensa nacional, muitas vezes ignorados até em seus Estados. Mesmo quando são produzidos com alguma ajuda de órgãos estaduais. Talentos capixabas Afonso Abreu é um lutador pela cultura capixaba. Ator, compositor e sobretudo pesquisador da MPB foi presença atuante em dois dos encontros nacionais da APMPB e, em Vitória, junto ao Departamento Estadual da Cultura vem há anos desenvolvendo um trabalho meritório. No ano passado, Afonso Abreu conseguiu, finalmente, lançar três elepês da "Série fonográfica/Espírito Santo", com produções interessantíssimas. O primeiro volume é mais um documento: aproveitando fitas gravadas amadoristicamente, em diferentes shows (o que explica a precária qualidade técnica) com o compositor e intérprete Aprígio Lyrio, acompanhado do grupo Mistura Fina (do qual o próprio Afonso Abreu fazia parte), em 12 faixas é reconstituído um pouco da carreira de Aprígio, falecido ainda jovem, e líder, por certo de um período musical na cidade de Vitória. O segundo volume ("Dedos em Destaque") é dedicado ao regional de Chiles Siqueira, exímio executante de cavaquinho, que à frente de um grupo de seis bons instrumentistas mostra que o choro também tem seu espaço entre os capixabas. Achiles (Colatina, ES, 27/9/27), executante de cavaquinho desde os 8 anos, há 40 anos em Vitória, é um dos chorões mais conhecidos do Estado. Tão bom músico quanto compositor, pelo que mostra nas oito faixas, todas dentro do estilo do choro tradicional, a começar pelos títulos como "Enrascadinho", "Saltitante", "Falou e Disse", etc. Já "Torta Capixaba", o volume 3 da primeira fornada desta série fonográfica (que, sinceramente, esperamos tenha seqüência em 1988) se preserva a memória de duas épocas: uma referente a um conjunto vocal que há 34 anos permanece quase que inalterado e a outra, que marcou o lançamento, há 11 anos, do projeto "Noites Capixabas", programação que reunia no Teatro Carlos Gomes dezenas de grupos, compositores e intérpretes capixabas que deram uma grande contribuição à MPB naquele Estado, entre os quais o pesquisador Osmar Silva (falecido em 1980, autor de uma importante história da MPB no Espírito Santo, editada há 2 anos) e Serrano (Joracy dos Santos, 1930-1983), compositor de quatro das 8 músicas gravadas pelo Trio Caiçará: a deliciosa "Torta Capixaba", "Cacici", "Rio de Janeiro" e "Aquela Morena". Existindo desde 1954, o Trio Caiçará tem resistido a algumas modificações e faz aquela música agradabilíssima, que nos remete à memória da época dos grandes conjuntos vocais brasileiros - Maraya, Nagô, Iraquitã, entre outros. As vozes harmoniosas de Jocarly José Vasco (também compositor, autor de "Brasil Hospitaleiro" e "Tributo a Osmar Silva"), executante de violão, Vamir Ramos e Erasto Lucas, no ritmo/vocais, fazem deste um disco agradabilíssimo, que, por certo alcançaria um público seguro, que lamenta o desaparecimento dos grupos vocais, que se voltavam a interpretar canções dolentes, românticas e apropriadas a várias vozes, como "Prece ao Vento" (Alcir Pires Vermelho) e "E a Vida Continua" (Evaldo Gouveia - Jair Amorim), que também foram (muito bem, aliás) registradas neste elepê do Trio Caiçará.
Texto de Aramis Millarch, publicado originalmente em:
Estado do Paraná
Almanaque
Música
17
17/04/1988

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