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Aramis

E o Poty fala no vídeo que documenta o seu novo mural

Compadre Poty está feliz. Ele que já fez dezenas de murais ao longo destes 40 anos de arte pelo Brasil afora está orgulhoso de, 34 anos depois, ter podido completar o que havia sido planejado quando o Palácio Iguaçu estava sendo construído no ano do centenário da Emancipação Política: um mural de 17,20 por 6,50 metros, no qual, mais uma vez, coloca toda sua arte e visão de seu Estado - do qual é o artista maior. O bom Poty, habitualmente caladão e tímido, está até falando bastante. Um de seus melhores amigos, parceiro em alguns livros, Valencio Xavier, está montando um belo vídeo no qual Poty explica a concepção da obra e fala de seus outros trabalhos monumentais que se espalham pelas praças 19 de Dezembro e 29 de Março, na fachada do Teatro Guaíra (que também teve que esperar duas décadas para ficar pronta, enquanto um trabalho complementar, no Interior ainda não foi feito), nos hotéis Araucária Flat e Paraná Suíte, na Assembléia Legislativa. Isto só em Curitiba, pois se fosse focalizar todas as obras monumentais de Poty, Valencio teria que fazer um longa-metragem, tantos são seus trabalhos. O vídeo focaliza Poty na execução do painel que o governador Álvaro Dias inaugura no próximo dia 19, mas também vai mostrar o artista andando por Curitiba, diante de seus outros painéis. Valencio e Poty são amigos há anos e, já por duas vezes, o primeiro documentou em imagens um pouco do trabalho de nosso artista maior. Mas a sua obra é tão grande e importante que merece todos os registros do mundo - pois poucos artistas conseguiram ser tão universais em suas criações (desenhos, gravuras, painéis etc), sem deixar de ser sempre paranaense. A idéia feliz que o secretário Fábio Campana, da Comunicação Social, teve ao levar ao governador Álvaro Dias, para que Poty executasse o painel que havia sido projetado em 1953 e nunca executado, entusiasmou o artista. O projeto original havia até sido esquecido, mas bastou Poty olhar as plantas para recompor tudo o que havia idealizado. Antecipando ao que dirá, de viva voz, no tape que Valencio Xavier realizou (e cuja veiculação merecerá ocupar horário nobre na televisão), algumas afirmações de Poty foram antecipadas em reportagem na revista "Quem" (nº 183, dezembro/87, Cz$ 50,00, nas bancas). Assim, diz Poty sobre o painel que teve os últimos retoques nesta semana: - O painel focaliza os primeiros habitantes, índios, tropeiros o desembarque dos imigrantes - um desembarque meio romanceado, sem nenhuma conotação histórica, sugestões de bandeiras em cima, e na parte de baixo, o pessoal com as malas e sacolas. O semeador, o desenvolvimento da gralha azul, uma coisa assim bem simplória, como seria a gralha carregando um pinhão. Depois, os pássaros com, em vez de pinhão, as coisas mais geométricas; quase logogrifos, cidades, símbolos, enfim. Executado em concreto, na técnica que Poty tão bem soube desenvolver: após o desenho, o artista amplia-o para as dimensões em que o painel é realizado e tem, ele mesmo, de esculpir os moldes em isopor. E nesses moldes os pedreiros despejam o cimento preparado que, depois de seco, é a parte do mural que é afixada na parede. Os moldes são esculpidos em negativo, isto é, a parte que será em relevo no painel é escavada e a parte que fica escavada no mural fica em relevo no molde isopor, por isso o resultado, de certa maneira, sempre é uma incógnita para o artista. Há três semanas, Poty dizia a Valencio - num depoimento gravado para o vídeo: - Gosto de surpresas. Quando o painel ficar pronto deixo cair o queixo se for o caso. Até agora, fiz tudo por cálculo. Quero ver depois de pronto; se não der certo, não vai ter como remediar, não há mais nada o que fazer. É esta a minha ansiedade. Mas Poty não tem motivos de ansiedade. Seguro, um mestre no que faz, suas obras sempre foram perfeitas. Há dois anos, quando presidente do Clube Curitibano, o advogado Constantino Viaro o contratou para executar um painel no hall de entrada da sede social. Uma horrível parede azul foi substituída por um mural belíssimo de Poty que vale 100 vezes mais do que custou. Aliás, contratar um painel com Poty - seja em madeira ou concreto - é o melhor investimento. No tape realizado por Valencio Xavier, Poty fez questão de gravar uma seqüência defronte o monumento ao guarda-freio, no bairro do Capanema, num largo próximo a casa onde viveram por mais de 50 anos os seus pais - seo Issac e dona Júlia. É um pequeno painel, que lhe tem um significado especial. De costas para a câmara, numa belíssima tomada, Poty diz: - Gosto muito desse painel pequenininho, na praça dos Ferroviários. Provavelmente é carinho pessoal. Em criança, fazia muita coisa sobre ferroviários, sobre guarda-freios, o ambiente em que eu vivia. Meu pai era ferroviário e o botequim dele era freqüentado quase que oitenta por cento, por seus companheiros, que iam trabalhar e voltavam e tomavam umas e outras. No mural do Palácio Iguaçu, sente-se, conforme diz Valencio Xavier, "a leveza e delicadeza do estilo de Poty: é como se um dos seus pequenos desenhos a nanquim estivesse ali, ampliado": - Nesse painel você vai notar que, em quase metade dele, eu estou procurando reproduzir traços, e não volumes. Dá o aspecto gráfico da coisa. Isso explica alguma coisa, alguns passarinhos estão em relevo e outros são só a linha. Nas figuras, algumas partes estão em volume, aquela coisa se projeta: as pernas do sujeito está assim; chega na cara, são linhas". Não apenas mais um painel de Poty. O PAINEL que três décadas e meia depois finalmente vem completar o grande projeto de Rubens Meister para o Palácio Iguaçu. Pena que Bento Munhoz da Rocha Neto não está vivo para a sua inauguração neste sábado. Mas, por certo, em espírito ali estará! LEGENDA GRAVURA: No traço do artista, o mural de Poty para o Palácio Iguaçu, a ser inaugurado no dia 19.
Texto de Aramis Millarch, publicado originalmente em:
Estado do Paraná
Almanaque
Tablóide
3
17/12/1987

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